Gabriel Ferreira
A inteligência artificial já chegou ao campo: como a tecnologia está transformando o agro de Mato Grosso
Drones, sensores, máquinas conectadas e análise de dados começam a mudar a rotina das propriedades rurais e ajudam produtores a tomar decisões mais precisas
Tecnologias como drones, sensores, máquinas conectadas e inteligência artificial estão ampliando o uso de dados na produção agrícola.A imagem tradicional do campo, marcada por máquinas, lavouras e trabalho manual, está ganhando novos elementos. Drones, sensores, sistemas de monitoramento, máquinas conectadas e ferramentas de inteligência artificial começam a ocupar espaço cada vez maior nas propriedades rurais.
Em Mato Grosso, um dos principais polos do agronegócio brasileiro, essa transformação ganha importância diante da dimensão das áreas cultivadas e da necessidade de aumentar a eficiência da produção.
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que a produção brasileira de grãos na safra 2025/26 chegue a 360,1 milhões de toneladas. Mato Grosso aparece como principal produtor de milho na segunda safra, segundo o levantamento divulgado em julho.
Nesse cenário, a tecnologia passa a ser utilizada não apenas para automatizar máquinas, mas também para transformar dados em informações que podem auxiliar o produtor na tomada de decisões.
Do monitoramento à tomada de decisão
A chamada agricultura digital reúne diferentes tecnologias. Sensores podem acompanhar condições do solo e do clima, enquanto imagens de drones e satélites ajudam a identificar diferenças dentro de uma mesma área.
A inteligência artificial entra justamente na análise desse grande volume de informações.
Em vez de depender somente da observação humana, sistemas digitais podem cruzar dados de clima, solo, máquinas e histórico da propriedade para identificar padrões e auxiliar na definição das próximas ações.
A Embrapa aponta que tecnologias como Internet das Coisas (IoT), Big Data, 5G, sensores, robótica e inteligência artificial fazem parte de um processo de digitalização que está modificando a produção agropecuária. Segundo a instituição, essa transformação pode contribuir para aumentar o rendimento, reduzir custos e diminuir impactos ambientais.
Máquinas conectadas começam a formar uma 'rede' dentro da fazenda
Um exemplo recente dessa transformação está em uma propriedade localizada em Pedra Preta, em Mato Grosso.
Segundo informações divulgadas nesta semana, uma fazenda utiliza um sistema que integra dados de 54 máquinas, estações meteorológicas e plataformas digitais. As informações são acompanhadas em tempo real para auxiliar no monitoramento da operação e na tomada de decisões.
A lógica é semelhante à utilizada em outros setores da economia: quanto maior a quantidade de dados disponíveis e melhor a capacidade de interpretá-los, maior pode ser a precisão das decisões.
No campo, isso significa saber, por exemplo, quais áreas precisam de maior atenção, acompanhar as condições climáticas e identificar possíveis problemas antes que eles avancem.
Drones se transformam em 'olheiros' das lavouras
Os drones também ganharam uma nova função no agronegócio.
Equipados com câmeras e sensores, eles podem produzir imagens detalhadas das áreas agrícolas. Com o auxílio de algoritmos de inteligência artificial, essas imagens podem ser analisadas para identificar características que seriam difíceis de acompanhar manualmente em grandes extensões de terra.
Pesquisadores ligados à Embrapa vêm desenvolvendo aplicações que utilizam inteligência artificial para analisar imagens obtidas por veículos aéreos não tripulados e outras fontes de dados agrícolas.
A tecnologia também avança na pecuária. Em uma pesquisa divulgada pela Embrapa em 2026, drones foram utilizados para acompanhar bovinos e modelos de inteligência artificial foram empregados para analisar imagens dos animais e extrair medidas corporais. O estudo buscou auxiliar na identificação do momento mais adequado para o abate.
Inteligência artificial também chega à análise do solo
Outra frente de desenvolvimento está abaixo dos pés do produtor.
A Embrapa possui uma solução tecnológica que utiliza inteligência artificial associada à análise de solo. O sistema pode auxiliar no mapeamento e na tomada de decisões relacionadas ao manejo agronômico, analisando características como carbono, textura e pH.
Na prática, quanto mais detalhadas forem as informações disponíveis sobre uma área, maior pode ser a capacidade de realizar um manejo específico para diferentes partes da propriedade.
Essa abordagem está relacionada ao conceito de agricultura de precisão, que procura aplicar recursos de maneira mais direcionada, evitando tratar toda uma área como se apresentasse exatamente as mesmas condições.
Tecnologia não substitui o produtor
Apesar do avanço da inteligência artificial, a tecnologia não significa que o produtor deixará de ter participação nas decisões.
Na realidade, a tendência é de uma combinação entre experiência humana e análise automatizada de dados.
O produtor continua sendo responsável por interpretar o cenário, avaliar riscos e definir estratégias. A diferença é que passa a contar com uma quantidade muito maior de informações para tomar essas decisões.
Esse ponto é importante porque a adoção de tecnologia também traz desafios.
Entre eles estão o investimento necessário, a capacitação de profissionais, a qualidade dos dados e a conectividade nas áreas rurais.
A própria Embrapa aponta a conectividade rural como um dos desafios da transformação digital do campo e alerta para o risco de aumento da diferença entre produtores com maior capacidade de adoção tecnológica e aqueles que têm menos acesso a essas ferramentas.
O próximo passo: um campo cada vez mais conectado
A tendência é que diferentes sistemas passem a trabalhar de maneira integrada.
Máquinas, sensores, drones, estações meteorológicas e plataformas de gestão podem formar uma espécie de rede digital dentro da propriedade.
Com a evolução da inteligência artificial, esses sistemas poderão não apenas apresentar informações, mas também identificar padrões e sugerir ações com base nos dados coletados.
Para Mato Grosso, onde a escala da produção agrícola é um dos grandes diferenciais, essa transformação pode representar uma nova etapa da modernização do campo.
O avanço tecnológico, portanto, não está mais restrito às fábricas ou aos escritórios. Ele também está acontecendo entre lavouras, máquinas e propriedades rurais.
E, no agro de Mato Grosso, os dados começam a se tornar tão importantes quanto as máquinas que trabalham sobre a terra.






COMENTÁRIOS